quarta-feira, 29 de junho de 2011

Vagabundólatra

Acordo. Levanto. Com a cara amassada coloco a água pra ferver. De meias, pantufas e uma camiseta velha, eu coloco o disco do John Lennon. Folheio o jornal sem ler se quer uma palavra, gosto mesmo é das figuras. Passo o café. Tomo uma caneca e como uma torrada com geléia de framboesa. Alimento meu Dente de Sabre e liberto minha coruja para dar uma sapeada, enquanto ela despacha uma carta aos meus superiores. Como ela é linda! Dessas ninguém nunca viu igual, a minha coruja é listrada como uma zebra. Visto uma calça jeans já enxovalhada e uma das quinze camisetas que tenho igual. Se não acho meus sapatos vou descalça mesmo, pouco me importa. Eu pego minha bagagem e começo a minha jornada. Pelo caminho eu ascendo um cigarro, e caminho vagarosamente enquanto aprecio a paisagem. Eu adoro essas árvores laranja, e esses hipopótamos plantados nos jardins. São tão gordinhos que mal conseguem caminhar, só que eles sorriem. E eu já havia ouvido mesmo que todos os gordinhos são felizes. Este céu de cor indefinida não me deixa saber se já é dia, ou se ainda é noite. Confesso que tenho certa inveja daqueles que vão para o trabalho em um tapete voador, porém no fim do ano eu já vou tirar minha carteira. Eu chego ao meu destino, já estou na fila e agora tenho que entrar. Ultrapasso aquele muro, dou o meu braço e eles encontram meu código de barras, daí vem logo aquelas histórias de que cobras que balançam muito o chocalho não comem muito. O colorido das avenidas e do bosque por onde passei some, e minha visão fica embaçada. Tudo fica branco, preto, letras, números, frases e fórmulas por todos os lados. A minha liberdade provisória, o que eles insistem em chamar de final de semana acabou. É todo mundo tão parecido e tão igual que fico confusa. Seus nomes são todos iguais, quantas Gabrielas tem mesmo por aqui? Acho que são milhões, ou pelo menos umas cinco. Tem pessoas que cochicham sobre mim o tempo todo e ainda pensam que eu não ouço, este é o problema: elas só pensam. Também tenho alguns amigos por aqui, mais eles também são parecidos e às vezes esqueço seus nomes. Tenho ainda uma colega de cela que é especial. Ela tem uma outra pessoa dentro de sua barriga! Eu não sei como isso é possível, mas ela diz que se chama gravidez. De qualquer maneira, eu queria ver essa pessoa, porém ela diz que ainda não é hora. Estou muito ansiosa, não sei se já vi uma dessas antes. Tocou o sinal, dizem que é o momento da refeição, mas vão nos entupir de venenos, frituras. Ligam o rádio e temos até uma musica para ouvir. Ninguém é tão bonzinho assim, eles querem nos testar, vão ficar a observar. Esta na hora de voltar para a “solitária em conjunto”, lá ninguém pode dizer nada a não ser Ele. Ele se acha o máximo, sabe mais que todos nós, ou acha que sabe. Aqui o tempo não passa, tanto que em dias de testarem a minha evolução, eu não posso usar relógio. Tocou o sinal novamente, agora é o banho de sol, quando eu aproveito para ir almoçar. É uma espécie de confiança que nos dão, nos deixam sair e em duas horas temos que estar de volta. Eu já não voltei, já fugi muitas vezes. Porém meus superiores sabem que sou vagabundólatra. E a vagabundagem você não deve experimentar, porque quando percebe já está viciado. É pior do que o craque. E é só cruzar o muro, que minha visão desembaraça, e vejo tudo colorido novamente. Já é noite, e os tapetes voadores ascendem suas luzes, as casas piscam, e as pessoas usam seus óculos de lua. Amanhã eu tenho que trilhar o mesmo caminho, e começa cedo. Nessas noites comuns eu não posso comer um boi ou um porco, nem usar as minhas roupas brilhantes. Eu volto então para o lugar das garrafas empilhadas, das roupas rasgadas, e das paredes pintadas. Talvez Jack vá me ver. E eu tenho que ir, como já disse, amanhã voltarei ao presídio cedo. Amanhã irei á escola novamente. 

terça-feira, 28 de junho de 2011

Rosinha Cachaceira

Tomou um gole de cachaça
Pôs sua cabeça a rodar
E não é que Senhorita Rosinha
Nem pensa mais em trabalhar!
No trampo, no canto, que tanto
Mas que canseira a ela dá
Conheceu a bohemia da noite
Agora só fica a festejar.
Ela não come, não dorme, não descansa
Só quer mesmo farrear
Dama da noite, nova profissão
Resolveu novamente trampar.
Rosinha fica com um,
Rosinha fica com outro,
Desta canseira ela gostou
E seu pai José, freqüentador de casas noturnas
A seguinte notícia chegou:
-Moça nova e bonita,
Faz muito bem e cobra barato
Aceita até velho banguela
Você vai ficar acanhado.
Seu José pensou um pouco
E esboçou um sorriso de lado:
-Será mesmo que chegou
Uma merecedora deste cargo?
E com uma desfeita dessas
Seu Sebastião ficou tão bravo:
-Como pode o senhor
Uma dama ter desprezado?
Seu José mais que depressa
Foi obrigado a dizer :
-Na verdade meu amigo
Eu estou abismado
Como pode uma dama
De banguelas ter gostado?!
Deve ser profissional
Categoria deve ter
Até logo já vou indo
Quero logo a dama ver.
E para casa então correu
Nem o seu café tomou:
-Rosa mãe não vou comer,
Só tomarei banho e já me vou
O Rodrigo meu amigo
Para sua casa me convidou,
Jogar baralho esta noite
Primeira rodada já começou
Não me espere para dormir
A mulher dele viajou.
Esta noite será dos homens
E o banho já acabou
Pôs o terno mais elegante
E passou a colônia mais cara
Fez a barba, pos sapatos
Saiu ás pressas pela calçada
Já chegando no bordel
Não pediu a cerveja gelada
-Quero logo ir para o quarto
Com a moça mais ajeitada!
-Seu José tem novidades
Dama de fora aí chegou
Os clientes tem gostado,
Ela tem trabalhado um bocado.
-Essa mesma que eu quero
Peça a ela que me espere
Hoje estou tão ancioso
E sorriu todo pomposo.
Porém mal sabia ele
Que era a sua filha amada
A Rosinha cachaceira
Que os homens tem gostado.
Ascendeu o seu charuto
O chapéu jogou de lado
A bengala apoiava
Em seu andar ao fim da escada,
E lá no ultimo quarto
Com a porta escancarada
Uma dama o esperava
De costas ali parada
Vestimentas descaradas
Que nenhuma outra moça usava
-Boa noite Seu José
Pode me chamar de Rosa,
Uma noite inesquecível
O senhor irá passar!
Se você tem preferências
Trate logo de falar.
Esperou pela resposta
E ele nada a falar
Então a musica tocou
E Rosinha foi dançar
E quando ela rodopiou
Mas que susto ela levou
Pôs-se logo a chorar
E seu pai a disfarçar.
-Oh papai peço desculpas,
Não queria que soubesse
Eu não tive outra escolha
A cachaça me pegou!
-Minha filha largue disso
Que desculpa mais tolinha
Vou-me embora para casa
Pela manhã passe na praça
Sua bagagem lá estará.
Não estou te condenando
Eu estou é te poupando
Fugiremos para Brasília
Um cassino clandestino
Eu sou o dono de lá!
Você não trabalhara,
Muitos homens poderosos
Lá costumam freqüentar
E você vai se casar!
-Não papai me largue aqui
E vá o senhor morar lá,
Eu sou mulher trabalhadeira
Eu não gosto de tranqueiras
Eu não quero me ferrar
Quero ter o meu dinheiro
E beber minha cachaça
Quero ter os meus clientes
Quero ser independente.
Seu José bandido nato,
Fugiu mesmo pra Brasília
Foi viver na putaria
E esqueceu sua família.
Já Rosinha cachaceira
Faz sucesso na cidade
E como esta na flor da idade
A cachaça vem de graça.
Seu Sebastião um bom velhote,
Convidou-a pra casar,
E já que a moça não aceitou
A mãe dela convidou.
Rosa Mãe já tão carente
De Seu José era dependente
Mas sozinha não ficou
E com Seu Sebastião se casou.
As coisas foram se acertando
Cada um com o seu ficou
A cidade comentando
Mas com o tempo vão esquecendo
Mais um tempo relembrando
E tudo vai recomeçando.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Monotonia

   -Ela não tem cabelos! Aonde é que já se viu uma menina sem cabelos! E ainda por cima pinta as unhas de vermelho, usa roupas curtas indecentes e até dizem por aí que ela toca guitarra em uma “bandinha de rock”! Mas meu filho, a Clarice é tão bonita, tem olhos claros e cabelos louros, toca piano, já se formou na faculdade e tem uma ótima família. A Clarice não fuma meu filho, ela não fuma! A Clarice se quer já experimentou bebidas alcoólicas e você vem me dizer que sua nova namorada esta a sua espera no bar do Jorginho. Lá é lugar para os homens meu filho. E não os bons homens como o meu mocinho não, lá é lugar de bandidos bêbados e drogados. Ah Meu Deus, porque é que seu pai nunca está em casa quando eu realmente preciso daquele infeliz? Alguém tem que tirar essa loucura da sua cabeça. Você sabe aonde é que ele se meteu? Só pode estar bebendo, ele só pode estar bebendo. Ela te hipnotizou com toda aquela história de sono astral e você tolinho nem percebeu.
   -Mãe eu já tenho 21 anos e a senhora sabe muito bem disso. Já sou um rapazote quase formado e agora eu já tenho os meus direitos.
   -Pois então, você já está quase formado e ela nem terminou o ensino fundamental. Ah meu filho! Você não pode. Você tem um nome a zelar. E também, como é que vai levá-la para passear, se ainda nem tem um carro. Essas meninas são interesseiras meu filho, ouve o que sua mãe lhe diz. Santo Cristo, não me diz que esse barulho de trator é aquela garota rabiscada, que você ainda insiste dizer que é tatuagens, com aquela moto monstruosa. Chega a dar medo! È tão arriscado essas modernidades querido, não prefere jogar dominó com seu avô, ele já esta para chegar!
   -Faça-me o favor mamãe! Estou de saída, vou dar uma volta, espairecer as idéias. Vou conversar em algum bar, tomar uma cerveja e vou até para uma festa mais tarde. Hoje não usarei meus sapatos engraxados, vou de tênis! E olhe minha camisa mamãe, vou com os dois primeiros botões desabotoados sim e sem gravata, e a senhora nem tente me impedir. É assim que Lara quer me ver. Não me espere para o jantar. Aliás, não dormirei em casa hoje mamãe. Não dormirei.
   E não dormiu. Não dormiu nunca mais.
   Maurício deixou os cabelos crescerem, e tem barba. Bebe cerveja no bar do Jorginho todas as quintas feiras e finais de semana. Maurício agora tem o braço tatuado, parou de praticar atletismo e anda malhando na academia. Maurício doou seus blazers e as calça sociais, ele usa all-star, roupas de couro, óculos escuros e aprendeu a tocar violão. Trocou o café pelo conhaque, o piano pela guitarra, Clarice pela Lara, a casa dos pais pela cobertura em Ipanema, o escritório pela banda, o individualismo por três filhos, a dieta balanceada por ovos e torresmo, o vinho pelo wisky, a monotonia pela satisfação. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Assim

 "Acordei. Fiquei vagando meu olhar lentamente ao meu redor, tentando me recordar aonde estava. Garrafas quebradas, roupas rasgadas e espalhadas, restos de comida, paredes pintadas, livros aos montes, todos empilhados e certamente empoeirados. Um cheiro doce e místico pairava no ar e um incenso já chegando ao fim, mirra. Levantei receosa e me deparei com uma caneca com café e torradas com mel. Ainda saia fumaça, estava quente, forte e com pouca açúcar. Encontrei uma janela, já era noite. Aliás, que horas são? Uma música soa baixinho e me faz sentir tão bem, minha mente se esvazia e não consigo pensar em mais nada. Ouço ruídos, passos se aproximam, mas nada me preocupa, estou tão á vontade. Olho para trás e la estava ele, Jack. A quanto tempo não o via, pensei até que tinha morrido, mas ele só aparece nos momentos bons. Me oferece um dos seus cigarros. Mas que pena! Eu não fumo mais! Pois, pensando bem aceito sim, sabe-se lá quando é que verei este maldito duende novamente. Eu tento uma conversa, mas ele nunca responde. Jack aprendeu a tocar flauta, mais que musica infernal! Ele só sabe três notas? Pare! Por favor! Não! Continue! Continue enquanto eu fumo o meu cigarro e escuto uma ótima musica! Começou a viagem, tenho de descobrir aonde é que estou. Mas não se preocupem, contarei tudo a vocês."
  Assim, ela começou a escrever.