-Você ia dizer algo?
-Preciso ir.
-Ah! Era mesmo o que queria ouvir.
Arrancou sua máscara, que ousadia! Isso jamais poderia ter acontecido. Seus 'Olhos de limão' a vira sem máscara, nua e crua -a verdade redonda. Sem dó nem piedade, a viu estampada em sua cara. A flor. Ele ofereceu sua flor a alguém, mas não se sabe a quem. Sua flor, isto, ofereceu a alguém que a aceitou, e depois a trocou. Está com ela. Não, eu já disse que não sei quem é. Depois da máscara despida, facilmente ela notou, percebeu que a flor dele se fora mesmo com alguém. Mas seus 'Olhos de limão' não entendem, é tudo tão complexo, não é mesmo? Alguém.Melhor? Bem pior, muito pior. Ele não entende nada, ela não sabe explicar. Ela jamais passara sua flor a alguém, pensara em passar. Mas foi roubada! Um feitiço! E depois de enganada nunca mais fora a mesma. Raptaram sua flor. E lançou-se a maldição. Mas ela aprendeu a lidar com tal, é tão fácil depois que se aprende. Basta neutralizar, como num balanceamento de equações químicas do cabeludo, ou no equilíbrio químico do pagodeiro: todos buscam o equilíbrio desde o 2°. É só cortar os cabelos e ninguém vai lembrar de nada, um disfarce perfeito! Uma outra pessoa! Jamais a reconhecerão. E deu certo, agora aparenta alguém de verdade. Já tem tudo planejado, pesquisou durante milênios nos livros proibidos de emprestar, e no "google" também. Ela estuda e usa vestidos, não mais sai descabelada e bêbada pelas ruas durante as madrugadas.
-O que foi que aconteceu?
-Você não vai querer saber, e eu não quero falar.
-Você lembrou de alguém?
-Não.
-Sim!
-Sim.
Agora ela pode ir com suas companhias pensar em outro alguém. Está tudo bem, não quer mais os seus brincos. Se os achasse talvez ele a teria acompanhado, ela queria dizer mais. Não é questão de explicação, não o deve satisfação oras bolas. Vendo a situação pelo lado de fora, foi melhor assim. Ele deixou uma pista, uma dica, um conselho:
-Pense em coisas boas.
Como se atreve? Mal sabe os seus 'Olhos de limão' o que é que se passava na cabeça dela. E lhe confesso que não é nada agradável, prefere agora não o ver mais. Não hoje.
No dia seguinte, ela acordou sozinha em sua cama, e ficou ali, parada e imóvel durante muito tempo, escutou o seu disco todo. Depois de tanto não pensar em nada: "O rótulo ficou mal feito". Ela pensa. Mas é claro! Aquilo não foi um rótulo, não foi nada, ou foi demais. Foi ela! Penso que somente foi, sempre é alguma coisa. Se eu pudesse ajuda-la, mas é que, não se deve interferir nestas questões. Além de que, a xerife está a caminho. Um almoço diferente. Tudo bem, ela já se recompôs, e usa sua máscara novamente. Nem parece que aconteceu algo tão estranho ontem. Jamais pensou que pudesse relembrar momentos tão cruéis. Estranho para ela, na cabeça dela. Acho que anda bebendo de mais, ou melhor, acho que anda estudando de mais.
Sabe que, eu não concordo em uma coisa: o ódio e o amor não são coisas muito próximas, digo que são dois nomes diferentes para a mesma "coisa". O ódio nada mais é que o amor, ao nível 0 ou 1 talvez. E o amor é o amor mesmo, ao nível 10. Já a pena, é verdade, esta é a pior. Está nos negativos, mas isto não vem ao caso. Não se passou pela cabeça de ninguém. É que na verdade, ela não sente ódio pelo outro, ela nem sente. Não sei o que foi que aconteceu. É, eu disse desde o princípio: complexo. Agora, venhamos e convenhamos: não estou a reconhecendo. Alguém sabe o que é que aconteceu? Ah, me lembrei: o feitiço, 'olhos de limão', sem máscaras.
Descongelou-se. Seu diamante, ela o viu brilhar. No espelho de seu quarto, um novo elefante: prosperidade. Elefante que sai fumaças. Letras coloridas. Desmaiou. Só acorda, só atende, só responde amanhã. Não mais quer saber de flores e suas histórias por hoje. É melhor escrever do que falar, ela não sabe conversar.Espero que ela durma bem.
-Você ia dizer algo?
-Preciso ir.
-Ah! Era mesmo o que eu queria ouvir.
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